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Isabel Parolin

Psicopedagoga clínica e consultora institucional de escolas públicas e privadas. Mestre em Psicologia da Educação. Professora em cursos de pós-graduação na área do Ensino e da Aprendizagem. Pesquisadora do grupo GAE da PUCPR. Palestrante e autora de vários livros destinados a pais e a professores. Isabel é mãe do Carlos (desde 1979), da Paula (1981), do José Augusto (1983) e da Joana (1986) e avó da Luana (desde 2002), do Gunther (2007) e do Giovane (2009).

Agora vou ter de comprar uma cadeirinha?

Eu mal comprei o carro e agora vou ter de comprar uma cadeirinha?

Uma mãe exclamava, indignada, a frase acima, diante de outros pais na saída da escola de seu filho. Ela visivelmente buscava a adesão de outros pais e, talvez, de algumas professoras ali presentes. Fiquei atenta à situação imaginando o que pretendia aquela jovem senhora. Cumprindo com o ritual de entrega das crianças, todos a ignoravam, alguns se entreolhavam rapidamente num claro acordo de não prestar atenção ao que ela dizia, tanto as professoras, quanto os funcionários e pais que naquele momento circulavam no ambiente a desviavam, numa clara mensagem de desacordo, ou no mínimo, de vergonha pela contundente afirmativa.

Não resisti e resolvi manifestar-me. A educadora que vive em mim não me permitiu nem mais um momento de silêncio. Tomei o cuidado de posicionar-me diante dela e procurando ser clara, sem ser agressiva, respondi entre risos e gestos que tentavam amainar a situação. Aproximando-me dela e colocando o braço em seu ombro, disse-lhe:

“Sim, vai ter de comprar uma cadeirinha, aliás, já devia ter comprado quando comprou o carro!”

“Não acredito que você concorda com esse absurdo!” Disse-me ela, olhando-me como se eu fosse um ser de outro mundo. “Sim, concordo e apoio a iniciativa. Mesmo sem ser obrigatório, tenho, desde que meus netos nasceram,a cadeirinha para transportá-los, pois não aceitaria que algo acontecesse com eles por falta dos cuidados básicos! – exclamei, tentando ser tão entusiasta quanto ela. Ela retrucou num tom de voz mais alto do que ela já estava tendo e olhando para os lados, certificando-se se a estavam ouvindo: “Você sabe quanto custa uma cadeirinha? Eu tenho dois filhos pequenos, além do mais, só vai caber os dois atrás do carro, mais ninguém! Você acha bonito isso?” Nisso, vários pais já estavam olhando-nos e uma professora já estava pronta para intervir. Mesmo assim, continuei tentando fazer com que a conversa ficasse só entre nós duas. Aproximei-me dela e fui falando baixinho contra- argumentando: “Não é bonito e nem barato, mas é seguro! Suas crianças estarão protegidas em caso de acidente. Além do mais, facilita para o motorista que eles estejam fixos no lugar. Você poderia se distrair caso eles estivessem circulando pelo carro.  Não se pode mais pensar em sorte ou azar diante de situações que sabemos, temos como evitar. O acidente o próprio nome já diz, é casual, mas  suas conseqüências podem ser minoradas. As pesquisas têm mostrado isso. “ Repentinamente, ela pegou os dois filhos, um no colo e outro pela mão e foi embora,  pisando firme, certamente, sentindo-se incompreendida.

Que pena que pessoas ainda pensem de forma tão imediata e limitante. Vivemos a era da tecnologia, da informação e do conhecimento e todos esses avanços tem de repercutir em uma forma de viver e conviver com mais dignidade e qualidade.

O conhecimento tem de iluminar as áreas obscuras da ignorância, tomar o lugar do mito e modificar velhas crenças. Quanto sofrimento e dor poderíamos impedir a partir de uma sociedade mais desenvolvida?  De nada adianta essa jovem mãe ter acesso a bens de consumo se ela não tiver educação para bem usufruir desses “bens”, se ela não respeitar a faixa de pedestres, as áreas de estacionamento de idosos, enfim…

Uma das responsabilidades dos pais é proteger seus filhos! É preciso estar maduro para bem desenvolver esse papel. Em verdade, a pergunta mais adequada não é quanto custa a cadeirinha, mas quanto ela vale.

Um comentário para “Agora vou ter de comprar uma cadeirinha?”

  1. Alessandra disse:

    Isabel,
    Parabéns pelo artigo e pela iniciativa de falar com essa mãe. Já tive experiências como essa, plantei a semente e muitas germinaram. Algumas ainda não, mas percebo que o paradigma está mudando e as famílias estão percebendo que não tem como fugir, o cuidado e a prevenção são a única forma de evitar os acidentes com crianças e toda dor que vem depois. A boa notícia é que eles podem ser evitados e estão disponíveis para todos os pais que quiserem proteger seus filhos.
    Que bom que o mundo tem mães e avós como você para serem bons exemplos. Esse encontro não foi em vão, pode ter certeza!
    Um abraço,

    Alessandra Françóia
    Coord. Nacional
    CRIANÇA SEGURA

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